O “prêmio” israelense para um jornalista palestino
Enviado em 22 de Setembro de 2008
Publicado por Arturo Hartmann | Enviar por e-mail
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Mohammed Omer é jornalista. Estava me correspondendo com ele através de email há algum tempo, desde maio. Foram poucos. O contato era parte do projeto que desenvolvemos no PortalPalestina. Enviei o primeiro contato no dia 6 de maio, às 16:48. Apresentei-me e expliquei como havia conseguido seu contato, através do site que mantém. Ele toca o site RafahToday, com informações a respeito da Faixa de Gaza, região afetada de forma mais dramática pela ocupação militar israelense.
Omer respondeu no mesmo dia, às 18:08, horário de Brasília, já tarde da noite na Palestina. Segue trecho: “Querido Arturo, Muito obrigado pelo seu trabalho duro e por tudo que está fazendo! De qualquer forma, diga-me como posso ajudá-lo. … Você está autorizado a usar materiais do meu website. AMO SEU POVO! Sinta-se à vontade em me contar a qualquer momento. Mohammed”.
Respondi a mensagem apenas uma semana depois, no dia 14 de maio. Expliquei o projeto e as necessidades que tínhamos de informações vindas diretas da Palestina. Desde então, não tive mais notícias. Em uma das reuniões da equipe do PortalPalestina, apontei certa preocupação. Mas foi logo dispersa pelo conhecimento da falta de infra-estrutura dos diversos serviços em Gaza, inclusive a Internet. Talvez apenas não tivesse recebido o email ou então o teria perdido após muitos dias sem acessar seu correio. Talvez nada tivesse acontecido.
Semana passada, 17 de setembro, às 5:51, recebi sua resposta: “Desculpe por minha resposta tão tardia querido Arturo. Espero que você esteja bem e esteja se cuidando. Eu terei que passar por uma operação em breve. Por favor, veja o que aconteceu comigo. Mohammed”.
Na mensagem, ele me passou um link, que me jogava para uma matéria do jornalista John Pilger, do The Guardian.
Em resumo, o que aconteceu a Omer: ganhou o prêmio Martha GellHorn de jornalismo, que recebeu no final de junho em cerimônia ocorrida em Londres. Levou como parte do prêmio 5000 euros. Na volta à Palestina, no momento em que passava pela ponte Allenby (que separa Cisjordânia e Jordânia), foi parado pelo ShinBet, órgão de segurança israelense, “infame” nas palavras de Pilger. Omer pediu para ligar para o oficial da embaixada holandesa responsável por sua saída e volta à Palestina. Não deixaram. Começaram a revistar sua bagagem. Diálogo (Edward Said estava certo, a palavra perdeu todo seu significado), começando pelo agente israelense:
- Onde está o dinheiro? Onde está o pound inglês que você tem?
- Não está comigo.
- Você está mentindo.
Omer percebeu que queriam o dinheiro do prêmio que havia ganho. Oito oficiais armados, então, o cercaram. O jornalista já havia passado por uma máquina de raio-X e estava só de cuecas. O oficial ‘Avi’ pediu que tirasse toda a roupa. Omer recusou-se. O israelense colocou a mão na arma. Novo diálogo, agora começando por Omer gritando:
- Por que você está me tratando assim? Sou um ser humano.
- Isso não é nada comparado ao que você verá agora.
O soldado pegou a arma, pressionou contra sua cabeça e com todo o peso do seu corpo imobilizou-o de lado. Arrancou sua roupa de baixo. “Ele então me fez fazer uma dança. Um dos soldados ria”, disse a Pilger.
- Por que está trazendo perfumes?
- São presentes para as pessoas que amo.
- Ah, você tem amor na sua cultura?
O que os soldados mais gostavam de fazer era tirar sarro das cartas que Omer havia recebido na Inglaterra. O jornalista relata a Pilger: “Eu estava sem comida e água havia 12 horas, e tendo sido feito ficar de pé, minhas pernas fraquejaram, dobraram. Vomitei e desmaiei. Tudo que me lembro é um deles enfiando, raspando e agarrando com suas unhas a parte sensível do músculo abaixo de meus olhos. Ele pegava minha cabeça e enterrava seus dedos próximo aos nervos da audição, entre minha cabeça e meu tímpano. A dor tornou-se mais aguda enquanto ele colocava dois dedos por vez. O outro homem tinha sua bota de combate no meu pescoço, pressionando no chão duro. Deitei lá por mais de uma hora. A sala tornou-se uma mistura de dor, sons e terror”.
Pilger informa que ima ambulância foi chamada, mas Mohammed só seria liberado se o médico palestino assinasse um compromisso isentando os oficiais israelenses do sofrimento durante sua custódia. O médico recusou e disse que contataria o acompanhante oficial holandês. Os soldados se assustaram e deixaram a ambulância partir. A resposta israelense, publicada na Reuters, seguiu a linha de que o jornalista era “suspeito” de contrabando e “perdeu a compostura” durante um “justo” interrogatório.
Em artigo publicado no The Nation, no final de julho, o próprio jornalista relata a experiência violenta pela qual passou.
“Fui desnudado com uma arma apontada, interrogado, chutado e batido por mais de quatro horas. Em certo momento, desmaiei e acordei com unhas pressionando o músculo abaixo dos meus olhos. Um oficial apertou meu pescoço com sua bota e pressionou meu peito contra o chão. Outros faziam rodadas chutando, rindo o tempo todo. Arrastaram-me pelos pés, passando minha cabeça pelo meu próprio vômito. Perdi consciência. Disseram-me depois que eles me transferiram a um hospital somente quando acharam que eu podia morrer. Hoje, tenho dificuldades de respirar. Tenho cicatrizes e marcas no meu peito e pescoço. Minhas mãos não funcionam bem; digitar é difícil. Meu médico informou que, devido a dano no nervo por causa de um chute, posso ficar impossibilitado de ter filhos e terei que fazer uma operação”. Escreveu isso no final de julho.
Está desculpado, Mohammed. Está desculpado.