O caso Finkelstein
Enviado em 6 de Junho de 2008
Publicado por Arturo Hartmann | Enviar por e-mail
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No último dia 23 de maio, uma sexta-feira, o acadêmico e professor estadunidense Norman Finkelstein foi preso ao chegar ao aeroporto Ben-Gurion, próximo à cidade de Tel Aviv, Israel, e deportado. A alegação das autoridades israelenses, segundo informou a agência israelense Ynetnews, do jornal Yedioth Ahoronot, é que a prisão, seguida de deportação, se deu “por preocupações de segurança” (security concerns).
Finkelstein, um filho de sobreviventes do Holocausto, é um dos grandes críticos das políticas do Estado de Israel em relação aos palestinos. Não apenas, pois também procura desmontar algum dos pilares que sustentam o Estado de Israel na sua forma judaica e sionista. Escreveu “A Indústria do Holocausto”, “Imagem e Realidade do conflito Israel-Palestina” e o mais recente “Beyond Chutzpah: on the misuse of Anti-Semitism and the abuse of History”.
Algumas manifestações após o ocorrido foram interessantes para se entender o tipo de sentimento que o Estado israelense alimenta desde sua fundação contra os tipos de críticas que Finkelstein faz. Sobrou até para Illan Pappè e Daniel Barenboim. Seguem abaixo algum dos comentários que leitores deixaram na página da agência Ynetnews (http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3547270,00.html). No total, até 6 de junho, 35:
1 - de Sheila, de Jerusalem
Inimigo do Estado – um deles, de qualquer forma! - Finalmente, e já tarde, nós estamos começando a entender que não temos que ser bonzinhos com aqueles que espalham mentiras sobre nós!!! Agora podemos negar a entrada a Illan Pappè (historiador israelense revisionista, seu último livro se chama ‘The ethnic cleansing of Palestine’), Noam Chomsky (lingüista estadunidense de origem judaica) e Mona Baker (professora egípcia de lingüística) já que eles são os inimigos íntimos.
13 - de Natar
#2, dá um tempo (respondendo à Thomas, dos Estados Unidos, que havia falado, entre outras coisas, “Vocês, povo judeu, perderam toda a decência humana?) - Ele não foi deportado. A ele foi recusada a entrada e de forma muito correta. Todo país, incluindo os Estados Unidos e outros, tem uma lista de pessoas “não bem-vindas” por diferentes razões.“A decisão de prevenir algumas pessoas de dar voz a suas opiniões com sua prisão e deportação é típico de um regime totalitário”… Essa declaração de seu advogado Oded Peler é ridícula. Finkelstein NÃO é um cidadão israelense. Cidadãos israelenses não são presos e deportados por dar voz a suas opiniões (pergunte aos árabes membros do Knesset. O senhor Finkelstein não é nada diferente de um terrorista árabe… Mantenha-no fora.
22 – de Robert Bernier – Tel Aviv
Judeus que se auto-odeiam são aliados dos árabes – uma parte da intelligentsia israelense, à esquerda, não é mais apoiadora do direito da nação à sua própria identidade judaica. Isso criou um vácuo perigoso. Nas universidades israelenses, historiadores revisionistas têm contado mentiras corrosivas sobre a história do país, retratando-a como tendo nascida no pecado. Nas escolas, crianças não têm aprendido história mas a desinformação árabe no lugar…
23 – de Monty, Tel Mond, Israel
Finkelstein – Sheila, compartilho de seus sentimentos, mas, infelizmente, sendo uma democracia, não podemos impedir a reentrada de cidadãos israelenses como Illan Pappè e Noam Chomsky. Pelo mesmo motivo, não podemos excluir Daniel Barenboim, um flagrante crítico de Israel. Podemos, no entanto, parar de convidá-lo a se apresentar em Israel. Eu sugeri anteriormente isso através de cartas à imprensa, mas sem resposta.
26 – de Terry, Eliat, Israel
O homem é inimigo de seu próprio povo – Nós não temos que justificar o tratamento dado a ele. … Na lei judaica, Finkelstein seria considerado um “informante”(masor, mesirah) e haveria uma pena de morte ligada a sua condenação, considerada a mitzva. Veja o que Maimonides disse, “Maim, Akkum Vê-Hukkoteihem 10:1”… Então, acabou saindo barato para ele, considerando a ferida que ele intencionalmente nos causou.
No dia 4 de junho, a mesma Ynetnews publicou artigo do advogado Oded Feller, membro da Associação pelos Direitos Civis em Israel. Segue abaixo a tradução de trecho do artigo:
(http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3550887,00.html)
“…
A automática ocorrência de muitos entre o público com a regra inexplicável das autoridades israelenses de que Finkelstein é “perigoso” é não menos incômoda do que o banimento de sua entrada. Não menos incômodo é, como notado, a percepção embaraçosa de que Finkelstein está “nos insultando”. Deveríamos saber que o aeroporto Ben-Gurion é uma entrada ao lugar que é lar para pessoas de muitas e diferentes visões. Boas maneiras não são pré-condições para passar pelo aeroporto.
Sinal de que o país está sob cerco
Em anos recentes, nós temos sido forçados a acostumar-nos à expulsão imediata de visitantes de ascendência árabe, parentes de residentes dos territórios ocupados, ativistas da paz e dos direitos humanos, e abusar de repórteres estrangeiros. Agora é a vez daqueles que ‘meramente’ incomodam Israel. A justificativa permanente para a política é que uma ‘pessoa estrangeira não tem o direito de entrar’, ou, em outras palavras, o Ministério do Interior e o serviço de Segurança Shin Bet podem decidir quem entra e quem não entra, e eles não precisam prestar contas a ninguém. Nem mesmo a cidadãos israelenses.
Esse procedimento, que é realizado rapidamente e discretamente, é um sinal que leva à idéia de um país sob cerco que teme que seus cidadãos ou aqueles sob sua ocupação sejam expostos à visão dos outros, sem um consenso. Liberdade de expressão não é apenas sobre o direito de alguém se expressar, mas também o direito de ser exposto à visão dos outros, mesmo que eles sejam revoltantes e incômodos.
Não importa se as visões de Finkelstein são brilhantes, revoltantes ou inúteis, temos o direito de tê-lo no país. A decisão de expulsá-lo de Israel não apenas o priva da liberdade de expressão, mas, na verdade, a todos nós.”