Os 60 anos de 15 de maio de 1948 - conhecer é o começo
Enviado em 15 de Maio de 2008
Publicado por Arturo Hartmann | Enviar por e-mail
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Hoje começamos, através deste blog, um esforço jornalístico para criarmos um conjunto de conhecimento que ajude no entendimento de uma das questões centrais da geopolítica de nosso tempo: a questão palestina.
Começamos por este blog, mas em breve colocaremos no ar o site PortalPalestina, com um conjunto de informações que aprofunde o conhecimento sobre uma questão que a muitos parece não ter solução. Não sem ausência de significado, damos o pontapé a este projeto no momento em que chegamos, neste 15 de maio, ao sexagésimo ano sem uma solução ou um horizonte para o final do problema que teve seu início na primeira metade do século XX, mais especificamente no dia 15 de maio de 1948. Ali, numa ação responsável pelo maior deslocamento populacional visto no Oriente Médio na era moderna, cerca de 750 mil não-judeus tiveram que deixar as suas casas, suas vidas, seu passado para espalharem-se em uma diáspora interminável.
Por um lado, Israel construiu sua narrativa oficial para aquele momento oficializando a sua independência, uma vitória judaica contra Estados árabes inimigos. Era a imposição de um Estado que deveria existir a qualquer custo, não importavam as conseqüências, e que deveria dar aos judeus uma idéia de segurança e de que estavam recuperando o lugar que lhes era de direito baseado em justificativas vindas de uma mitologia religiosa e um pensamento que ganharia o nome de sionismo.
Aos palestinos nada sobrou. Sem suas casas e suas vidas, sobrou a ausência do apoio árabe, sobrou a vida da diáspora, de territórios ocupados, de controle, de uma vida vigiada. A justiça que o sionismo alegava devolver aos judeus foi sugada dos palestinos não-judeus. A partir daquele 15 de maio, a grande maioria dos palestinos vive em deslocamento, em todos os sentidos que a palavra pode adquirir.
Uma boa leitura que possa ilustrar o sentimento palestino vem das linhas de Mourid Barghouti. Poeta e escritor palestino, em seu livro Eu vi Ramallah, de 2006, ele faz uma descrição literária da viagem que fez à Palestina em 1996, momento temporário, baseado nos Acordos de Oslo, no qual foi permitido a volta daqueles “palestinos de 67”, e coloca no papel a sensação que teve ao rever depois de 30 anos sua terra, um relato encharcado de reflexões e de um mergulho na identidade palestina:
“Na derrota de 1948, muitos se refugiaram nos países vizinhos em caráter ‘temporário’. Panelas foram deixadas no fogo, pois se esperava que a volta fosse em poucas horas! Espalharam-se em tendas e em barracos de zinco, de latão e de palha, ‘temporariamente’. Os combatentes pegaram em armas e lutaram am Amã, ‘temporariamente’, depois em Beirute, ‘temporariamente’, depois foram para a Tunísia e a Síria, ‘temporariamente’. Elaboramos programas de libertação ‘temporariamente’ e nos disseram que aceitariam o Acordo de Oslo ‘temporariamente’ etc. Cada uma dizia a si mesmo e para os outros ‘até as coisas clarearem’”1.
O tempo, como mostram as linhas de Barghouti, passou. A catástrofe palestina ganhou as diversas nuances que as políticas de opressão impuseram a ela. Mas a vontade de um palestino ser palestino permanece. Aqui, mais linhas pessoais de Barghouti: “Pensei: ‘O que esta terra tem de excepcional a não ser o fato de a termos perdido?’ É uma terra como qualquer outra. Não a cantaríamos a não ser para recordarmos a humilhação personificada por sua retirada de nós. A humilhação angustia a vida dos humilhados. Nosso hino não é por algo sagrado do passado, mas por nossa aptidão, que a continuidade da ocupação desmente diariamente”2.
O projeto PortalPalestina procurará narrar, contar essa história que é muitas vezes enterrada. Dentro do conflito, existem realidades, geográfica, política, social, histórica e cultural, necessárias para entendermos o dia-a-dia que nos é jogado sobre o conflito, um conjunto de conhecimento que deve ser desvelado. A solução da questão é complexa. Entendê-la também. Mas ao contrário do que o senso comum acredita e profere em geral quando se discute a questão palestina, de que “não há solução”, acreditamos diferente. Esperamos dar um pequeno passo, no âmbito da sociedade brasileira, em direção a uma melhor compreensão. Pois conhecer já é um começo.
Notas
1 “Eu vi Ramallah (memórias)”; Mourid Barghouti; tradução e notas Safa Abou-Chala Jubran. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2006. Pg. 41.
2 Ibid. Pg. 22.